quarta-feira, 24 de março de 2010

Duplo saneamento

No programa especial sobre o PEC que passou ontem na SIC, após os Jornal da Noite, José Gomes Ferreira levantou e bem a questão de "Porquê fazer mais uma ponte sobre o Tejo nesta altura, se nem a Vasco da Gama atingiu a lotação máxima?". Concordo: avançar agora para tal construção não seria mais que um sinal de novo-riquismo.

Mas manda a primeira lei da demagogia que o investimento nas obras públicas se faça como método a curto-prazo de diminuir o desemprego. Ora, todos sabemos ser este um expediente que conduz a emprego precário e de curto prazo, e que em pouco ajuda a economia estrutural do país a não ser para enriquecer os barões da construção civil.

Dando agora uma volta de 180º ao assunto em questão, e independentemente de ir falar sobre Sócrates (pois o mesmo raciocínio poderia ser aplicado a qualquer outra pessoa), proponho uma pequena reflexão sobre estratégia política, tanto pessoal como para o país real. Todos sabemos que José Sócrates enfrenta hoje em dia uma tremenda crise de credibilidade, e sem dúvida que, por muitos anos, mesmo vindo o Carmo e Trindade abaixo, haverá sempre alguma comunicação social nunca deixará de ir procurar os podres no armário. Mas enquanto o passado não pode ser re-escrito, um futuro é uma página em aberto.

A minha premisa, neste momento, entrego-a numa linha: Sócrates podia aproveitar esta altura de crise como o momento ideal para apostar na re-estruturação do tecido empresarial fundamental do país. Os benefícios são tanto para Sócrates como para o país:

Já que a crise está a impôr um saneamento no tecido industrial, o desemprego continua a crescer e socialmente a coisa não pode piorar muito, eis-nos chegados à, como dizia Churchill no auge da Batalha de Inglaterra, "our finest hour". É a altura ideal para aplicar medidas de fundo, que não têm necessariamente de implicar grande peso aos cofres do Estado, para tentar garantir que a recuperação a longo prazo se baseie no crescimento de uma economia estrutural minimamente bem definida, e não recorrendo ao típico expediente de curto prazo das obras públicas.

Sócrates, em contrapartida, ganharia a reputação de não ser permeável quer à tentação fácil de apostar em obras públicas, quer à influência dos já mencionados "barões". A apresentação de propostas minimamente razoáveis de apoio à indústria nunca contaria com grande oposição dos restantes partidos, e creio que aumentaria o tempo de vida da actual legislatura.

Claro, as perguntas impõem-se. Primeiro, que medidas? Bom, não tenho resposta para isso, mas presumo que os empresários tenham uma ou duas sugestões. E segunda: ainda que a proposta faça algum sentido, Sócrates tem margem de manobra para tal? É que, bem sei, os meandros da política são intricados e Sócrates não chegou a primeiro sem fazer compromissos com gente importante. Além disso, mesmo caindo o governo agora, não estou a ver Sócrates com grandes dificuldades em ser Presidente da República daqui a 10 ou 15 anos (talvez menos), por isso ele não tem grande motivação para se dar a este trabalho.

Sem dúvida é a cultura da influência que está a minar a Democracia e o objectivo último desta em desenvolver o país.

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